Ontem meu pai disse que viria uma ''frente fria'' pro sul da Bahia, deve ter visto jornal. Dito e feito. Junto com a ''frente fria'' veio chuva, sem vento. Entretanto, chuva com cheiro de passado.
A chuva me faz querer ficar o dia todo debaixo do edredom,me faz querer ainda mais ler, escrever, abraçar, amar, e comer qualquer coisa que contenha açúcar. Me faz escutar música boa, e só escutar mesmo -não cantar- e refletir sobre ela. Me faz refletir muito sobre tudo, mais sobre o passado, mas ontem fiz reflexão completa: passado, presente, futuro. Me perguntei em diferentes tempos verbais... ''O que fiz, o que deixei de fazer? O que tenho feito? O que vou fazer?''. Refleti, re-refleti, tri-refleti. Conclui que não deixei de fazer nada, fiz até demais... Isso me dá uma sensação de satisfação, de realização, de ser completa. E me recordo de uma música ''Eu fiz de tudo pra ganhar você pra mim. Mas mesmo assim...'' e realmente cara, eu fiz de tudo! Mas, porém, todavia... Sempre tem mas's, poréns, todavias... Sempre tem conjunção de oposição e adversidade no meu passado, mas deixa estar, deixa pra lá, deixa que a gente supera. A gente supera junto, ou a gente supera separado. Ou então superamos separado, porém, não sozinhos. Além do mais o passado já foi o presente.
Eu tenho sido tão feliz, muito feliz mesmo, mais feliz que criança em circo. Mas sempre falta algo. Sempre tem uma conjunção fazendo filhadaputice na minha vida - acho essas conjunções desnecessárias, muito melhor deixar as coisas subentendidas, prefiro orações assindéticas. Eu também tenho crescido muito por dentro -sei que é ilusão. Tenho deixado ele crescer dentro de mim. Como diria Caio, eu esperava uma avenca, mas reguei, dei espaço, e agora já vejo que passou de uma roseira. Tenho me sentido velha, conhecedora das coisas, da arte, da vida, da arte da vida. Tenho me sentido chata, mais que nunca. Cheia de não-me-toques, de sistemas confusos que nem eu me entendo. Acho que agora sou eucarionte. Complexa. Me fechei. Mudei. Amadureci. Talvez seja só uma metamorfose. Talvez eu esteja mesmo estabelecendo dentro de mim pontos fixos, medos, coragens, gostos, não's e sim's. Aprendi durante esse tempo de autorreflexão que sou mesmo uma caseira, introvertida na maioria das vezes, que detesta formalidades, jantares, cafés, chás que tenham mais pessoas do que imaginara, e que exija garfo na mão esquerda, faca na direita. E faca. Que exija etiqueta, cotovelos flutuando, asas fechadas, pernas cruzadas. Isso não é muita coisa, é uma frivolidade. Mas expressa uma opinião, então, é importante. Eu prefiro pernas pro ar, comer de colher, mesmo sendo mulher. Eu prefiro domingos inteiros sem fazer nada. Eu prefiro mil dias com um alguém, do que um dia com mil alguéns. Também é ainda mais notável que ando meiga. Que ando olhando sempre dois lados de uma situação e me colocando no lugar das pessoas -antes eu já fazia isso, mas agora me por no lugar do outro se tornou um reflexo, algo obrigatório, decorado pelo meu cérebro. E mais notável é a minha arte mais aperfeiçoada: pensar em voz alta. Não pensar nas consequências ao falar... Só ''plin!!! falei!'', simples assim, espontaneidade se chama esse dom.
''O que vou fazer?'' Essa sem sombra de dúvida é a pergunta mais difícil de todos os tempos. Sem resposta. Talvez eu possa embromar, dizer... Amar, viver, fazer o que der na telha. Deixa estar, deixa a deixa, deixa a vida me levar, deixa o verão pra mais tarde...
Deixa ser como será! Deixa o amanhã chegar, e reorganizo tudo, e faço. Quando chega na hora agá, não tem como fugir. Só tem como viver, mal vivido ou não, com medo ou não...
É algo inadiável: viver e esperar pra ver o que dá, enquanto isso eu curto meu frio com minha frivolidades e minhas vontades estranhas.